domingo, 29 de março de 2015

ROSA NEGRA

Introdução



E finalmente lá estava eu. Com minha arma, em meu escritório e o meu silêncio. Quanto tempo levou para chegar esse dia? O quanto eu o adiei? O meu rito para o sossego é interrompido pelo desespero de minha doce Micaela batendo e gritando na porta. Trato de ignorar. Por que este momento demorou tanto? Ela já caminhava comigo a muito. Só agora estava na ponta do cano daquela arma em minha boca. Dizem que nesses instantes a sua vida passa ante seus olhos e comigo não é diferente. Então...



Nasci como todos: de uma mulher e apanhei de um cara mal vestido. E mesmo não parecendo, e não sendo, um garoto saudável, não seria a saúde o maior problema da minha vida. 

Acho que tudo começa aos meus 6 anos. É quando percebo que há algo de errado com o mundo, e/ou algo errado comigo. Eu era só uma criança, você irá dizer, e assim eu era e agia como uma. Sem vergonha e feliz. O que eu via de errado era com os meus pais, com as suas estórias, e também com o meu corpo. Na minha infância, nos momentos em que não estava em minha cama. É que por causa de uma doença eu não podia fazer nada, além de ficar deitada, durante meses. Mas quando estava boa era um garotinho normal, brincava e aprontava. Adorava ser um ninja, ninjas podem sumir e se disfarçar. Fazia tudo isso sozinha. Quando eu tinha chances, vestia as roupas das minhas irmãs e mãe. Esses momentos eram mágicos e se tornavam mais especiais e raros. Não sei quando exatamente, mas foi nessa época que vi o erro no meu corpo, eu havia nascido no corpo errado.

De alguma forma, eu sabia que meus pais não iam gostar nem um pouco, talvez por eles sempre tentarem consertar o meu jeito, então, eu fazia sempre escondido. Tentei resolver este problema da única forma possível, pelo menos para mim e em minha situação. Eu pedi a Deus. Pedi a ele que mudasse, mas ele nunca atendeu e ainda, no futuro, descobri que era uma desculpa para causar mais dor, incluindo meus pais.

Até ai eu estava infeliz apenas por não ser uma garota e um pouco por minha doença. Então ela disse “oi” pela primeira vez e eu deixei entrar. É claro que meus pais entraram em desespero, eu tentei suicídio ainda criança. Eles passaram a me levar ainda mais a igreja, mas isso só piorava a minha situação.

Fui crescendo cada vez mais só. Nos meus 15 anos tudo piorou, a angústia era maior. Agora eu compreendia bem. Agora só queria morrer e caminhava para isso. Eu não podia ser eu, não podia me expressar, tinha que fingir querer o que não queria. Doía. E então? Por que sofrer?

Até aqui ninguém sabia do meu desejo de ser mulher, pois, eu só tinha a minha família e se soubessem disso eu estaria perdida. Perderia a minha casa, minhas chances e viraria um nada. Talvez tivesse que me vender para viver e acabar morrendo nas drogas. O outro lado era chorar a noite, viver de uma forma que odiava, viver sem prazer, sem motivação. No fim as duas dão em morrer.


Eu queria algo certo como um tiro ou veneno, mas nunca tive coragem de tentar (só daquela vez). Algumas noites me sentia determinada, mas não conseguia. Eu era fraco, um covarde ou talvez ela tivesse outros planos para mim.