sábado, 4 de abril de 2015

Rosa Negra - Os Planos da Morte



Depois da escola, às vezes, saia para comprar. Podia ser qualquer coisa, mas nesse dia foram livros e café. Como sempre, andava com meu fone ouvindo minhas músicas favoritas e me desligando do mundo. Parei em uma livraria e comprei umas distopias e depois de folhear mais alguns livros, saí para tomar o café.
Fui até uma cafeteria do outro lado da rua. Era até adequado para aquele dia frio e nublado, mas havia perdido muito tempo na livraria e precisava mesmo ir, então, peguei um para viajem.
Distraída tomando meu café e pensando em meu livro, atravessei a rua sem prestar atenção aos carros e então achei ter descoberto os planos que a morte tinha para mim. Não, não era morrer. Uma moto enorme veio em minha direção, foi tudo tão rápido, vi ela buzinar e desviar para a esquerda. O piloto deslizou e a moto também, só parando depois dele. Eu fiquei lá, parada, com a cara de assustada. O piloto se levantou e como não devia estar tão rápido e todo equipado, acho que não se machucou muito. Ele foi até a moto, a desligou, mas foi o que se passou depois que me deixou mais impressionada.
Ele veio até mim! Achei que ia apanhar ou no mínimo ouvir escândalos, mas ele disse enquanto devolvia minhas coisas:
- Olha, você se machucou?
- Não – Respondi tímida.
Ele tirou o capacete.
- Que bom! Eu acho que nós três estamos bem. Escuta, eu posso lhe comprar outro livro e pagar um café. – eles caíram e o café o encharcou.

- Tudo bem para você? – continuou ele.
- Sim, claro. E... Me desculpe, sabe? Por isso.
- Seus pais não ensinaram como atravessar uma rua? – ele sorriu.
- Ensinaram sim! É que... Foi mal – sorri timidamente de novo
Ele era alto, mas, também, eu sou baixa.
- E você? Não vai a um médico? Você caiu
- Eu estou bem. Relaxa, cara.
Ele abriu a porta para mim e entramos na livraria.
- Aqui, estou louca para ler esse! É uma distopia, ela fala de...
- Hum! Legal, faz assim; esse fica para mim e você parece precisar de... Vem cá! – Falou e me levou pelas mãos – Já leu esse? “The Hitchhiker's Guide to the Galaxy”. Toma – pegou toda a coleção e me deu.
Eu não disse nada. Ele pagou os livros e me fez sorrir de novo.
- O que foi? Você vai gostar. Se esse que me mostrou lhe agrada, então, este também vai.
Eu fechei minha boca de retardada e sorrir dizendo “tá bem”. Saímos e fomos para o café. Lá, ele tirou o macacão antes de sentarmos e novamente. A minha breve fantasia foi interrompida por suas palavras.
- E então, quantos anos você tem?
- 16. – fiquei olhando para fora e ficamos alguns instantes em silêncio.
- Eu tenho 20. Eu não sou daqui.
- Ah! Sabia! De onde você é?
- De algum canto da parte de cima.
Uma mulher trouxe torta e nosso café
- Mas não pedimos nada – eu disse.
- Calma. É que eu sempre venho aqui. Eu sento e a doce Sol traz o que eu adoro. Você quer outra coisa?
- Não! Tá bom! Você veio trabalhar?
- Não, eu vim atrás de uma coisa.
- Que coisa?
- Não posso lhe dizer.
Eu insisti, mas resolvi parar. Não queria chateia-lo.
- Tá bem.
- Você é um garotinho um pouco tímido e parece bem esperto.
- Na verdade, não sou tímido, mas não consigo pensar em nada olhando para você. Talvez tenha sido o susto.
- Naquela hora, pensava em quê?
- No meu livro, nos meus pais.
- Morrer por um livro? Isso acontece muito.
- Verdade – sorri – O que você quer comigo? Tipo, você viu se eu estava bem, isso já foi o suficiente. E, ainda, fui eu que quase o matei.
A carinha de cachorro rejeitado que ele fez me deixou arrependida do comentário.
- Bom... Fiquei preocupado, você parecia assustado e perdeu suas coisas, seu café, café é sagrado! Não sei, é estranho mesmo.
- Ah! Você deve ser tipo um incomum – rimos- Um nobre herói em 500CV – rimos mais ainda – e eu a donzela em perigo.
- Donzela?
- Não! É... – Engoli seco. Acho que pela primeira vez deixei escapar meu segredo. Gaguejei, ele riu de mim.
- Você é gay?
Eu nunca havia revelado isso, mas, até agora, ele havia sido gentil e não nos conhecíamos, era, na verdade, uma chance de finalmente pôr para fora.
- Bom, você é gentil, então acho que não vai me machucar. É mais ou menos isso. É que eu gosto de “mininos” também. Vai me matar por isso?!
Ele riu e disse: - Não. Estamos entre minorias.
- Hum. Então você também?
- Nãaaoooo... – Foi um não bem longo.
- Então o quê?
- “Ná”. Qual sua religião?
- Entendo, ateu.
- Eu podia ser do candomblé.
- Verdade, hehe, eu sou ateu. Acho que os macumbeiro não arrumariam problemas.
Ele sorriu com os olhos enquanto bebia em sua xicara. Fiquei encantada com aquilo.
Conversamos mais um pouco até o lanche acabar. Demos um tempo, ele pagou e saímos. O sol estava se pondo e a tarde estava linda. Eu estava feliz como nunca estive antes.
Por que eu estava tão feliz? Talvez tivesse feito um dos meus primeiros amigos, ou estava apaixonada. Na verdade, acho que pela primeira vez, pude me expressar e, ainda, para melhorar, ser compreendida.
- Onde você mora? – Perguntou ele enquanto me entregava o capacete.
A noite ainda não havia caído e já estávamos lá, desci e a tristeza me tomou de novo.
- Te vereis novamente?
- Eis? Ah! Sim! Eu não conheço a cidade, vou precisar de você em minha busca e o único que pode me ajudar é você. – Ele disse logo depois de forma mais pomposa: - “Somente a mais pura e sábia donzela despertará o coração negro”.
Eu sorri, estava feliz.
- Para. Não ria! Não encoraja minhas besteiras. E, é bom ficar com você também.
- Tchau! Irei espera-lo.
E então. Assim ele se foi. O meu herói assassino em seu cavalo de negro...